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Antigamente... coisas perdidas no tempo.
 

 

UM POUCO DE HISTÓRIA

Ivan Gouveia[1]

As coisas que fazemos, quer boas ou não, ficam de alguma forma pregadas à nossa existência. Por mais que nos esforcemos, sempre há reminiscências de coisas que emergem para nos lembrar do que fomos ou do que jamais conseguimos ser. A palavra nostalgia nunca expressa tudo o que nos toma quando tentamos tocar o tempo que nos escapou das mãos.

                                                                                                                         Ivan Gouveia

 

 

O sol sempre nascia encabulado como as gentes do meu convívio naqueles tempos. Algumas se deram conta de que era preciso se adaptar e buscar mais para alicerçar o futuro. Outras ficaram lá no passado mesmo, que até hoje, na era da comunicação, ainda se recusam a aprender o alfabeto. Nas cidadezinhas ou na roça, a tecnologia chegou, mas nem sempre ficou no coração daqueles que realmente amam o campo. Aqueles que se deleitam com a roça verdejante. Creio que melhor viver é este. Mas falando de mim, não fiquei nem lá, nem cá. É possível que me tenha perdido no tempo e esteja, ainda agora, encabulado com as tantas mudanças que o tempo trouxe. Sou o caipira tecnologicamente modificado.

Desde de muito cedo, o trabalho bateu à minha porta. A escola foi escassa e os brinquedos quase inexistentes. Estes, se existiram, foram os que  minha pouca criatividade e experiência puderam construir. Como quase a maioria dos meninos, apeguei-me pelos carros e caminhões e os buscava construir do que estivesse ao alcance. Fosse de madeira, lata ou barro, sempre tinha se suprir o desejo de ganhar algum brinquedo pronto. Como fui detalhista desde muito cedo, o tempo de brincar era passado, muitas vezes, confeccionando os brinquedos. Mas já isto se tornara a brincadeira em si. Às vezes, nem um simples e enferrujado alicate havia e as chapas, cortadas à faca, eram moldadas com os dedos mesmo. Não raro resultava em cortes nas mãos que, por conseqüência, traria momentânea proibição do ato de inventar brinquedos. Uma vez achei um pequeno alicate no meio de restos de uma casa queimada. Estava só a parte de metal, o resto tinha derretido. Mas foi uma esplêndida ferramenta por algum tempo. Um dia foi lá em casa um conhecido de meu pai que, ao ver meu alicate, disse estar precisando de um. Meu pai não titubeou e foi logo entregando aquilo que representava melhoria no meu teimoso amassar de lata. Não me permitia pegar as ferramentas dele e, quando eu desrespeitava isso, a bronca era sempre muito severa.

Precisava estar pronto para o trabalho. Tinha já uns dez anos de idade e a escola ainda parecia ser um sonho impossível. Não trabalhava como um escravo, mas produzia por um adulto em condições normais de trabalho. Lá o sol só era acanhado quando se levantava. Já alto, ele queimava o lombo sem nenhuma ponta de dó. A enxada era pesada e a plantadeira manual tinha altura desconfortável, mas o trabalho precisava ser feito. Podia esquecer os brinquedos, viesse a escola e bastaria. Não veio antes dos quatorze anos de idade.

Aos quatorze anos era muito jovem para ingressar no antigo MOBRAL, ao passo que já era passado da idade para ficar na primeira série do primário. Uma alternativa era a chamada Educação Integrada que reunia pessoas que estivessem nesse meio-termo, mas que já soubessem ao menos ler. Não era meu caso. Sabia lá o a-e-i-o-u, mas creio que fosse tudo. Não quiseram me admitir em nenhuma dessas turmas. A indignação fervia-me a alma. Lembro que briguei muito, quase sem esperanças. Enfim consegui admissão na chama Educação Integrada (espécie de supletivo que compreendia os quatro anos do ensino primário). No começo não consegui acompanhar o ritmo de ninguém por lá, mas quando terminou aquele ano, eu era considerado o que sabia mais na turma. Simplesmente devorei os livros, como quem, em passando fome a vida toda, quer pôr para dentro toda a comida que vê. Então já podia me ingressar na quinta série. Grande coisa? Para mim era. Sei que tem muitos outros brasileiros que passaram por isso e seguiram em frente. A gente acaba descobrindo que o segredo do negócio é nunca desistir.

Nessa época trabalhava um pouco menos e, em baixo do soalho, montava minha oficina. Por esse tempo, contava com uma faca sem cabo, um alicate velho, alguma madeira e uma abundância de embalagens de lata no lixo pelas ruas. Saía, então o meu Mercedes-benz 1519 trucado e com carreta de três eixos. Muitos outros modelos, antes desse, jamais foram fotografados.

O material dos pneus era a madeira da cerejeira. Muito boa para qualquer trabalho. A noção de escala era apenas visual. Este era mais ou menos 1:7. Mas até dá para calcular com mais precisão, visto que a calota da roda dianteira era o fundo de uma das tão conhecidas latas de óleo de cozinha. O pára-brisa era feito de uma garrafa pet aberta. O assoalho da carreta era de forro comum de madeira. Foi o primeiro modelo que consegui comprar tinta para a pintura da cabine.

Nessa época eu já tinha trabalhado como ajudante (chamavam de badeco) por quase um ano numa oficina de mecânica diesel.

Mais tarde, depois de empregos como ensacador de arroz em uma empresa de beneficiamento de cereais. Entrei em uma empresa de ônibus como aprendiz de lanternagem (todo tipo de serviço de reparo de lataria dos ônibus). Engraçado que, pelo Brasil afora, essa profissão muda de nome: funileiro e latoeiro, por exemplo. Mas o que importa é que lá eu tive noção de solda elétrica, solda a oxigênio, pintura, tapeçaria e fibra de vidro (fiberglass). Vindo, mais tarde, a me destacar nessa última área. De lá saiu o meu primeiro modelo de ônibus. Um Paradiso da Marcopolo.

Eu passava boa parte do horário de almoço soldando essa encrenca com a ainda escassa experiência com solda elétrica. Era uma coisa de 1,60m de comprimento, que eu mantinha escondido debaixo de um ônibus. O pessoal da chefia não tinha conhecimento da peça inusitada que, embora não consumisse muitos eletrodos e fosse de retalhos de chapa que tinha o lixo como destino, poderia me custar o emprego. Ainda mais que eu já tinha conquistado minha primeira promoção no trabalho. Para quem só tinha seis meses no emprego, eu tinha abusado. Mantinha o chassis num lugar e a carroceria em outro. Não daria tanta impressão do estrago.

Eu não tinha muita noção de como realmente era o chassis do Volvo B-58 trucado, mas aí está o que eu pude captar. Hoje existe a Internet para tudo quanto é tipo de pesquisa, mas aqueles foram os anos 80.

Era uma geringonça tão pesada, que eu (17 anos) e meu irmão (14 anos) sofremos para carregar a carroceria até em casa. Na foto se pode notar que o eixo dianteiro parece estar arqueando, tanto era o peso que ele tinha de suportar.

Consegui manter oculto, por algum tempo, o meu Paradiso de retalhos de chapa. Entretanto, um dia, alguém lá da empresa, mordendo-se de curiosidade e desejo de me ver mal, conseguiu, dissimuladamente, levar o pessoal da chefia até a minha criatura estranha. Ele, propositadamente, derrubou uma chapa de ferro que cobria digamos "a coisa". Acho que foi logo no dia seguinte, quando fui chamado para falar com o patrão. Bem sabia eu o que poderia advir. Mas eis que o inesperado, às vezes, acontece, pois ele gostou tanto que me deu uma promoção com condições de trabalho muito mais favoráveis do que eu podia esperar àquela época. Em verdade o que penso é que ele viu que eu conseguia reproduzir alguns detalhes das peças e achou que me sairia bem no trabalho com fibra de vidro (fiberglass). Ainda hoje me pego pensando que, nos dias que se seguiram, gostaria de ter visto a cara do autor da delação. Há vezes que, quem nos quer derrubar, balança-nos de tal modo que ao buscarmos equilíbrio, acabamos saltando adiante do ponto que pretendíamos atingir. Não posso dizer que as coisas foram muito fáceis a partir desse ponto, mas sei houve significativa melhora.

Então os dias se seguiram, vagarosamente, um após o outro. O sol, às vezes, se ia triste, manchando o céu de matizes. Mas sempre deixava no ar um tom de esperança. Era um ponteiro para o futuro. Ainda hoje continua sendo.

Naquele tempo, eu morava numa cidade pequena e tranqüila. Pelo que me lembro, havia apenas duas avenidas asfaltadas. O resto era poeira e buracos. Hoje, mais de 20 anos depois, o progresso trouxe muitas mudanças. Mas o tempo atesta também que já não sou aquele jovem de antigamente. Em passando o tempo, a gente passa a economizá-lo. Planejo muito as coisas e defino hora para quase tudo. Mas nem tudo, que a gente não pode ser escravo do relógio. Com tantos projetos na mente, fica difícil definir prioridades. O jeito é ir fazendo um pouco um, um pouco outro.

 

Este material ainda está incompleto, mais detalhes serão acrescentados assim que for possível.

Obrigado pela compreensão.


[1] Pós-graduado em Redes de Computadores pela FACIMED - Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal. Graduado em Tecnologia da Informação pela UNESC - União das Escolas Superiores de Cacoal. Tem CCNA (Cisco) como curso complementar de Redes de Computadores. Profissional da área de Eletrônica e de Programação de Computadores. Programador nas linguagens Delphi e Visual Basic.