"Penso, logo existo" (René Descartes), será verdade?
Há quem tenha deixado, ou quase deixado de existir por pensar
(Giordano Bruno, Galileu Galilei e outros). Para algumas pessoas, especialmente
para alguns chefes da Igreja Católica, desde o Tribunal do Santo Ofício, pensar
não é o pecado maior, mas a manifestação do pensamento o é. Refletir sobre
assuntos que nos afetam no dia-a-dia torna-se um hábito essencial para a vida à
medida que o indivíduo toma conhecimento de si como ser pensante que pode compor
grupos com poder de mudança.
Ivan
Gouveia
"Do mesmo
modo que os atores põem uma máscara, para que a vergonha não se reflita nos
seus rostos, assim entro eu no teatro do mundo - emascarado."
René
Descartes
Nesta seção vou emitir minhas humildes opiniões
sobre alguns assuntos. Como diz o outro: “Quem pediu tua opinião?” Não sei, mas a
vontade de falar às vezes nos aflora e não conseguimos conter a língua, isto é,
os dedos no teclado, porque algumas verdades tem de ser ditas. O objetivo da seção não é levantar polêmica
além da que já se apoderou de alguns fatos importantes, mas suscitar o
habito de refletir. De pessoas ilustres se dão ao trabalho de ouvir as opiniões
e até requisitam-nas, mas de mim... Como estou meio enferrujado no ato de
escrever, vou expor também textos importantes de colegas para que o caro
internauta não encontre aqui apenas uma linha de raciocínio. Bem, vamos aos textos.
O cinema dos países do primeiro mundo, especialmente
o norte-americano, é repleto de clichês e feito numa fôrma já meio surrada.
Usada desde os tempos da vovó, mas que ainda faz filmes de muitos sabores. Saem
os de pouco ou nenhum sabor também. Metáforas à parte, o cinema americano nem de
longe esgotou sua fórmula. Ainda faz sentir calafrios, arranca gargalhadas,
derruba lágrimas copiosas. Sobretudo, eles conseguem manter alguma dignidade no
personagem tratado e, sem dúvida, é isso que faz toda a diferença. O tempo é
usado em prol do roteiro e, às vezes, o que poderia ser uma seqüência de cenas,
se resume num único gesto, num olhar, ou em gesto nenhum. Aí está a mágica da
coisa. É resumido e eficaz. Em contrapartida, o cinema nacional é cheio de
gestos exagerados, típicos do meio teatral. É como se ainda não tivesse evoluído
deste, que me parece um meio intermediário na vida de um ator. Então o sujeito
gesticula tanto que falta caírem-lhe os braços. Na vida real nós brasileiros,
embora tenhamos comportamento bem diferente das gentes de outros países, não
somos tão exagerados na gesticulação. Nosso cinema é, infelizmente, bem imaturo.
O cinema nacional sempre teve seus bons momentos,
mas o que mais gosto de lembrar é o tempo do saudoso Amácio Mazzaropi, um
verdadeiro gênio. Com seus personagens a um só tempo ingênuos e astuciosos,
conquistou fãs de todas as idades. Quem não o conheceu, veja Mazzaropi quadro
a quadro no link
http://www.museumazzaropi.com.br/crono.htm. Mais recentemente o cinema
brasileiro tentou parecer moderno e pretendeu até representar os eventos
oriundos do mundo tecnológico atual. Mas, leda ilusão. Não temos ainda aparato
para satisfazer tal ambição. Já nem falo na questão monetária, mas de cultura
cinematográfica e de métodos.
Não adianta ter bons atores sem um diretor à altura.
Há diretores que arrancam dos atores aquilo de que nem mesmo eles sabiam que
eram capazes. Então, fora o dinheiro, e as máquinas, a boa mágica do cinema se
dá com o perfeito casamento das capacidades dos atores com as do diretor. Daí
vem a fluência da vida que parte da película projetada e prende o espectador
firmemente à cadeira. Pondo-o em completo silêncio, ou fazendo-o gritar sem se
dar contar. Não há quem não se renda a um bom filme, enfim a um bom espetáculo
seja ele de qual forma for. Contudo, já ouvi muitas pessoas se queixando que o
cinema nacional não presta, que nada se aproveita. A gente sabe que não é bem
assim. Mas quem vai se emocionar, ou rir até, quando os personagens do filme
ficam o tempo todo gritando “PORRA!” e outras palavras desagradáveis? Nessa hora
quem me vale é o bom e velho amigo controle remoto. Não sejamos ingênuos ao
ponto de pensar que tudo deve ser muito bem comportadinho e com linguajar hiper
refinado, retratando uma coisa que não seja nossa realidade. Mas a realidade do
povo brasileiro não é assim tão “escrachada”. Já morei em muitas cidades do
Brasil e jamais acreditei que o cinema nacional (não é regra) retratasse o povo
de alguma delas. Externamente não somos tão promíscuos quanto o nosso cinema nos
retrata. E olha que já faz tempo que espero passar a ver mais filmes nacionais.
Às vezes tenho de assistir filmes (sem a craseado mesmo). É que tenho de estar
pronto para passar para frente ou mudar de canal em certas partes. A gente tem
de lembrar que há crianças na sala.
As produções televisivas que mais se destacam no
Brasil são as telenovelas. Estas são produções relativamente baratas em relação
aos filmes, levando-se em conta o período de exposição das duas modalidades de
espetáculo. Não adianta mudar de canal, a fórmula é praticamente a mesma. E tome
telenovela! Quem agüenta? Se não tem outra coisa a fazer, a Internet passa a ser
um substituto, pois na TV, com muitos jornais sensacionalistas, é perigoso vazar
sangue da tela.
Feitas as pesadas críticas que, de fato, doem mais
em mim, que quero poder me orgulhar do nosso cinema, assim como tenho orgulho de
ser brasileiro, faço questão de lembrar que a gente não está aqui só para jogar
pedras. Temos, sim, trabalhos dos quais podemos nos orgulhar como Tropa de Elite
(filme forte e realista), Depois daquele baile (clima nostálgico e alegre), O
Auto da Compadecida (excelentes atores), Trair e Coçar É Só Começar (boa
comédia) e outros que serão citados mais tarde.
Se você leu até aqui, ou está me xingando ou gostou
do que relatei. Por favor, não fique com raiva, pois em breve disponibilizarei
um meio de você me criticar também. Por hora, obrigado.
Todo mundo acompanha estarrecido a “crise” pela qual passa o Poder
Legislativo. Talvez nem esteja tão escandalizada a população diante da
repetição diária das notícias dando conta das mazelas e absurdos lá
cometidos. Trata-se de um festival com o dinheiro público. É triste, mas é
real. Vamos tentar compreender um pouco disso, se é que podemos ou é
possível. Vejamos, então, a ótica constitucional das coisas.
O Senado da República e a Câmara dos Deputados compõem o Congresso Nacional.
Trata-se de casas responsáveis pelas atividades típicas de elaborar,
discutir e votar leis (arts. 48 e 59, CF), e de fiscalizar os atos do Poder
Executivo (art. 49, X, CF).
O Senado, ademais, tem um papel relevantíssimo na federação brasileira. É a
casa que deve proteger a federação.
A federação é a forma de estado adotada no Brasil, pela qual se estabelecem
vários núcleos de poder num estado composto. As partes – estados e
municípios - gozam de autonomia, que é a capacidade de autogoverno,
existência de orçamento, receita, leis próprias. Em um estado unitário (como
a Espanha, o Uruguai), só existe um núcleo de poder: o central. Tal é a
importância da nossa forma de estado que sequer por emenda constitucional
ela pode ser alterada (art. 60, §4º, IV, CF)
Os senadores representam os estados (art. 46, CF), enquanto os deputados
federais, o povo (art. 45, CF). A representação dos estados no Senado, como
sabemos, é igualitária, ou seja, qualquer estado, grande ou pequeno, possui
três senadores. O Senado tem atribuição constitucional de velar pelo pacto
federativo, evitando-se, por exemplo, aquilo que se chama de guerra fiscal
entre os estados mediante controle de alíquotas do ICMS (art. 155, §2º, IV e
V, CF)1, que é um imposto estadual. Há diversas outras atribuições do Senado
que reforçam esse aspecto do pacto federativo2.
O Senado da República deve ser a casa da convergência, da unidade, do
equilíbrio. Na Câmara dos Deputados, porém, é salutar haver divergência,
pluralidade, diferença, porque o povo é assim.
Pois bem. O Poder Legislativo tem também vida administrativa – atividade
atípica - , verificada na existência de estrutura física, patrimônio,
servidores, necessidade de fazer licitações e concursos públicos, nomeações
de pessoas para cargos em comissão e funções de confiança (o que vamos
distinguir mais à frente) e muito mais. É tudo aquilo que o Poder Executivo,
de maneira mais clássica, e o Poder Judiciário também fazem.
Estamos cansados de ver ilustres senadores e deputados e as instituições
Câmara e Senado praticando, na sua vida não-legislativa, imensurável afronta
à Lei Fundamental, à qual evidentemente eles também estão sujeitos. Parece
que não sabem disso.
Não são ignorados os graves problemas de gestão e corrupção envolvendo os
ex-diretores do Senado Federal, fatos também adstritos a sua vida
administrativa.
Entretanto, pretende-se abordar aqui especificamente a questão relacionada
às nomeações aos cargos comissionados mediante atos secretos (secretos?), e
às passagens aéreas distribuídas sem nenhum critério. Nesse ponto em
especial, parece que ter percebido que havia necessidade de regras sérias
para o uso de passagens foi uma grande descoberta. Nossa! Então não pode ser
assim de qualquer jeito? Não posso doar uma passagem aérea a minha namorada
para viagem de férias? É preciso respeitar a Constituição? Brincadeira! E
olha que o Deputado Michel Temer, presidente da Câmara dos Deputados, é um
importante constitucionalista brasileiro.
Esses fatos ilustram bem o que se pretende mostrar.
Vamos repetir a premissa. O Poder Legislativo desenvolve atividades
administrativas.
Assim, vejamos os famosos princípios constitucionais que orientam a vida
administrativa do estado brasileiro.
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes
da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos
princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e
eficiência e, também, ao seguinte:
Vamos lá. É preciso mostrar o óbvio a eles. Assim diz a norma: A
administração de qualquer dos Poderes da União. O Legislativo compõe algum
dos poderes da República? Com muito esforço, pode-se concluir que sim.
O que são princípios? Os princípios, como se sabe, são valores, mandamentos
que norteiam todo o sistema, servindo de sustentação para a interpretação
das normas no âmbito do sistema jurídico.
São normas – impõem observância - , as mais importantes do ordenamento
jurídico. Servem de fundamento de validade a todas as outras normas. E
quando a violação é de princípio constitucional? Nossa! Aí a coisa é séria,
é o maior desrespeito que se pode ter.
Voltemos aos atos secretos do Senado nos quais são escondidas imoralidades.
É possível sustentar isso, gente? A República não admite! A coisa pública
não aceita! É preciso avisar isso aos parlamentares. A publicidade dos atos
estatais é direito fundamental dos cidadãos, meu Deus! Não há contradição
maior em não se dar publicidade a atos públicos por excelência. No Estado de
Direito tudo tem que ser posto às claras. É direito fundamental, repito.
Vamos a ele.
Art. 5º, XXXIII - todos têm direito a receber dos órgãos públicos
informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral,
que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade,
ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade
e do Estado;
O que são os cargos em comissão e as funções de confiança? Observem a
Constituição Federal.
Art. 37, V - as funções de confiança, exercidas exclusivamente por
servidores ocupantes de cargo efetivo, e os cargos em comissão, a serem
preenchidos por servidores de carreira nos casos, condições e percentuais
mínimos previstos em lei, destinam-se apenas às atribuições de direção,
chefia e assessoramento;
Em respeito aos princípios da igualdade, da moralidade e da impessoalidade,
num Estado Democrático de Direito, a regra é o ingresso no serviço público
por meio de concurso público. Entretanto, o legislador constituinte traçou
algumas exceções, algumas das quais previstas no dispositivo transcrito
acima. São as atribuições de chefia, direção e assessoramento. Ser nomeado
para função de confiança pressupõe a ocupação de cargo efetivo, ou seja,
aquele para o qual se exige concurso público e tem regime jurídico próprio,
decorrente de lei. São cargos não regidos pela CLT. O que mais nos interessa
aqui são os cargos em comissão, aqueles também baseados na confiança. Para
esses não se exige a condição de ocupar cargo público. Em tese, qualquer
pessoa pode ocupá-lo, já que a lei referida na norma constitucional
supracitada não existe ainda. Os cargos de assessores de parlamentares são
em comissão, de livre nomeação e livre exoneração (traduzindo: liberdade
para admitir e demitir a qualquer tempo, quando quiser). Lembremos que há os
princípios constitucionais aos quais eles, os probos legisladores, devem
observância.
Não é pelo fato de ser o cargo de livre nomeação e exoneração que o
parlamentar pode fazer dele o que quiser. Há os princípios constitucionais,
que são NORMAS, obrigam, vinculam. É vedado o nepotismo (contratar parentes
para o serviço público) em todos os poderes e esferas do estado brasileiro.
É importante destacar a súmula vinculante 13 do Supremo Tribunal Federal.
Tamanha é a força dos princípios que a súmula seria até dispensável. Mesmo
assim, viu-se a necessidade de editá-la. Mas os princípios continuam sendo
desrespeitados.
Parlamentares ignoram a Constituição. Praticam o nepotismo cruzado, um
ajuste de nomeações recíprocas. Um nomeia parente do outro. O STF foi
criterioso e também o vedou. Eles brincam com a soberania popular: o poder
emana do povo. Este é o princípio republicano. Brincam com o dinheiro
público e, por conseqüência, com o povo.
Comportamento contrário aos preceitos constitucionais e a súmula
evidentemente viola a moralidade e a igualdade. Penso que nem precisa
definir ou conceituar esses princípios, por serem auto-explicativos.
Configura ato de improbidade, conduta indecorosa, imoral, antiética. Talvez
seja necessário comentar um pouco sobre o princípio da impessoalidade, de
cujo nome não se extraem o seu significado e todas as suas implicações.
O que será dito aqui serve tanto para as nomeações aos cargos em comissão
quanto para a distribuição das passagens aéreas.
O princípio da impessoalidade é valor que se impõe num Estado Democrático de
Direito, sob pena de se legitimar adoção de privilégios e a mistura do
público com o privado.
Ele se revela sob duas perspectivas: a primeira se mostra compreensível na
norma reproduzida abaixo, em sua última parte. Acompanhemos.
Art. 37, § 1º - A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e
campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou
de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens
que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos.
Na publicidade de atos de governo, é vedado associá-la aos governantes ou
servidores. Todos os atos emanados do Poder Público são atribuídos ao Estado
e nunca ao servidor que os editou.
A outra perspectiva do princípio da impessoalidade é a atuação do estado se
dar sempre de modo a evitar preferência, privilégio às pessoas. Trata-se de
estrito cumprimento do princípio da igualdade. É em decorrência deles que
existem os concursos públicos e as licitações, por exemplo, de modo que as
escolhas sejam feitas com base em critérios objetivos, nunca arbitrários ou
subjetivos. Isso é como deve ser! Nem sempre é. No Legislativo, quase nunca.
Esta é bem importante ao Senado, que é, como vimos, a casa da federação. É
preciso avisar aos nobres senadores que existe uma vedação de natureza
federativa que contempla também o princípio da impessoalidade. Vejamos:
Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos
Municípios:
III - criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.
Podemos notar que a junção das primeiras letras de cada princípio do art. 37
forma a palavrinha LIMPE. Desse modo, como não tem havido observância desses
valores pelo Poder Legislativo brasileiro, vamos fazer um SANEAMENTO lá nas
próximas eleições, porque aguardar o Conselho de Ética não parece ser
decisão acertada. Nem integrantes tem o bendito conselho do Senado Federal.
Aguardar a ação do Ministério Público e da Justiça também não se revela
medida razoável, dadas a inoperância e morosidade de ambos. A soberania
popular deve resolver isso, votando–se melhor. Por fim, só mais uma
pergunta. Que legitimidade tem o Poder Legislativo de realizar a sua
atividade típica de fiscalizar os atos administrativos do Poder Executivo se
a sua vida administrativa é uma balbúrdia?
Espero ter ajudado.
Fabrício Fernandes Andrade
Brasileiro
Cacoal-RONDÔNIA
Quem conhece a história dos FNMs, sabe que eles
eram produzidos na Fábrica Nacional de Motores em Xerém, Rio de Janeiro. Sendo
um caminhão robusto e resistente, chegou a compor mais de 50% da frota nacional
de caminhões no auge de sua produção. Com uma aparência marcante e um ronco
peculiar do motor, era facilmente distinguido dos demais caminhões. Enfrentou
desafios num Brasil de estradas escassas e mal conservadas. Participou da
construção de Brasília e, apelidado de João Bobo, não enjeitou carga para qual
fosse o destino neste Brasil. Tomou o apelido pelo próprio fato de levar tudo
quanto pusessem em sua carroceria. Correu o tempo e hoje não existem muitos
deles no trabalho, sendo que a maioria do que resta deles estão nas mãos de
colecionadores.
Pois bem, os FNMs vieram do Rio de Janeiro e, nesta
semana, senti-me muito honrado de mandar a primeira miniatura para aquela
capital. O FNM pegou o caminho inverso e retornou para sua terra natal. É quase
como o filho pródigo que regressa ao lar. Mas não, o FNM não é assim. Então deve
ser como o soldado que retorna depois de feitos gloriosos. Assim partiu a
miniaturam feita pelas mãos de um artesão humilde e dedicado, que é este que
está escrevendo este texto. Modéstia à parte, a miniatura recebeu um generoso
elogio do comprador, tendo ele ficado de confirmar outras encomendas. Embora eu
não tencione ficar fabricando essas miniaturas para venda, isso traz certo
orgulho de produzir algo que, por tudo aquilo que representou para o progresso
no transporte de cargas no Brasil, traga boas lembranças às pessoas.
Com um quase injustificável apego por máquinas e
outros mecanismos engenhosos, faço miniaturas artesanais de carros e caminhões.
Porém nenhuma miniaturar me põe mais a divagar do que a do FNM. Tenho estudado
bastante digamos a “anatomia”
desse
caminhão, mas como se vê, ainda tenho muito que melhorar. Foi, aliás, como
escritor amador que, tendo iniciado o esboço de um romance que aborda a vida nas
estradas precárias do Brasil dos anos 70, comecei a fazer uma miniatura de FNM D
11000. Esta servir-me-ia ao propósito da ambientação em torno do caminhão.
Contudo, a história permanece inacabada e parada, que o tempo é uma mercadoria
cara e que não se pode manter. O correr pelas coisas que nos vem por obrigação
não deixa muito espaço para aquelas outras que nos caem apenas por deleite ou
capricho.
Entro no ônibus sob um sol tão brilhante quanto quente. As rodas giram sobre o
asfalto escaldante. Fora isso, nada de extraordinário acontece. Mas o hábito de
meter ao papel pensamentos entrecortados em forma hieroglífica me pega
desprevenido. Tenho aqui o papel, mas dou pela falta da caneta. Preciso
conseguir uma na próxima parada, vou pensando.
O barulho monótono do interior do veículo costuma me pôr sonolento. De repente,
me pego a observar as árvores que passam por mim, ou antes, sou eu quem passa
por elas. Ponto em que penso sobre a relatividade do referencial. Afinal, não
faz nenhum sentido. Eis que é só divagação engendrada pelo costumeiro ato de
ocupar a mente com algum pensamento. Expediente que busca, em vão, encurtar a
viagem.
Uma senhora de idade já avançada senta-se ao meu lado. Resmunga algo que não
consigo entender. Depois passa a falar sobre a família. Intercala a conversa com
aquele algo que eu não entendera. Nem dessa vez pude entender. Que ela teria
dito? Não ouso perguntar. Vejo nela traços de uma vida corrida com certa candura
e humildade. De pessoa que ama e é amada lá pelos que a conhecem. Falou muito
mais sobre si mesma e sobre a família. Sempre repetindo o que para mim parecia
um resmungo, porque era pronunciado em tom mais baixo, como se dissesse de si
para si. Fico curioso sobre as palavras ininteligíveis para mim. Porém, eis que
agora noto com certa clareza que ela diz: Aleluia! Amém, Jesus! Então era isso...
Ora, como não entendi? Sempre perguntando o nome de cada cidade e vilarejo por
onde passamos, como quem nunca tinha vindo por esse lado a que vamos,
finalmente, numa dada encruzilhada dos caminhos, numa estação rodoviária, ela
nos deixa. Vai com Deus e Jesus, também com o motorista e os passageiros daquele
outro ônibus.
Depois de algum tempo a observar o horizonte com um olhar desprovido de senso, principio a pensar sobre a efemeridade da vida. Ri comigo: no ônibus, exceto o
motorista, tudo é passageiro. Não é assim com a vida também? Não são os
motoristas da vida senão a consciência e a vontade? Agora a grama verdejante
passa rápido lá fora. Grama e palmeira o tempo todo. Finalmente, palmeira e
grama. Estou mais sonolento.
Uma charmosa jovem toma o lugar da velha e encantadora senhora. Traz ao colo uma
criança que julgo ter senão um ano de idade. Fala em bom tom e aparenta ser boa
mãe. A criança se estressa com o barulho e o calor demasiado. Com janelas
lacradas e aparelho condicionador de ar defeituoso, torna-se terrível a viagem,
com muita estrada ainda pela frente. Vou tirar um tempo para reclamar com a
empresa de ônibus, penso. Sou um esporádico usuário desse meio de transporte e
como brasileiro típico, é possível que deixe a reclamação para os usuários de
todos os dias, concluo. É assim que as coisas costumam acontecer. Quem se
importa? Continua abafado. Novamente palmeiras e grama. Agora algumas placas.
Outra cidade. Dois dias longe de casa trouxeram muita ansiedade de voltar. Lá
fora as pessoas de muitos lugares diferentes correm para embarcar. Gente marcada
pela vida, com semblantes cansados, alguns até com cicatrizes na face. Outros
aparentam tê-las no espírito, marcadas para uma vida inteira. Essas pessoas vêm
de muitos lugares, vão para muitos lugares. Aqui é o ponto de encontro, mas
ninguém se encontra. Questionar sobre para onde os ônibus nos levam me arremete
à efemeridade da vida. Sobre um outro destino. Uma outra estação em algum lugar
distante no cosmos. De onde não se espera ou não se pretende voltar. A estrada
pelo éter onde a única bagagem são as recordações. Penso na vida como uma
viagem maior. Como seria partir sem ter deixado as marcas da planta dos pés aqui
nesse mundo. De novo o asfalto fumegante. Ontem, visto da janela do hotel, tudo
era muito estático, refletia paisagens de um lugar que jamais conheci. Agora,
pela janela da condução, tudo se move rápido, algo nauseante até. Nem o céu
parece parado. A poltrona ao meu lado está vazia. Passam rapidamente pela
memória trechos das falas das duas mulheres que estiveram ali. As da primeira
martelam como que para se fixarem, a fazerem para si algumas escassas sinapses.
Batalham em vão. Nunca tive muita amizade com Jesus, nem gosto de falar com Deus.
As pessoas o fazem. É assim que as coisas são. Para mim só conta aquilo que se
pode fazer por meio do trabalho, conhecimento e bom senso. Cai a tarde ainda
mais sonolenta por causa da mistura do ruído monótono do veículo com a mórbida
paisagem, que se alterna entre a penumbra e uma réstia de sol. Afinal estou mais
perto de casa. O ânimo para a escrita se esmaece como as matizes no céu que se
refletem no vidro da janela. Há vezes em que a metafísica se faz insuficiente e
cansativa, como fuga a mente se perde com futilidades. Eis que, em dado momento,
me pego lendo instruções para uso do banheiro. Está decidido que não vou mais
escrever. Entretanto, não fique o leitor tão entusiasmado: não vou mais escrever
por ora. A caneta vai para o bolso junto com a folha rabiscada e amassada. Só
espero que todos façam uma boa viagem.
Oportunistas
de plantão sempre
insistem em fazer desse país um verdadeiro circo sem graça. O picadeiro da terra
do faz de conta, do viver de aparências se transborda de cômicos sádicos. Estes
não titubeiam com suas ações que vão contra a necessidade de uma verdadeira
satisfação social para um povo em que a minoria mais favorecida não carece
dessas falsas consolações, sequer é tão afetada com essas palhaçadas sem graça
quanto aqueles que, são assalariados, ou nem isso. Estas são pessoas que
realmente necessitam de algum favorecimento do poder público. O que não é, nem
de longe, uma esmola, visto que o percentual que se paga de tributos por cada
produto ou serviço, nesta terra de ninguém, supera o que é cobrado em outras
nações onde o cidadão tem o merecido retorno na forma de melhorias nas áreas de
saúde, educação e segurança principalmente. O carnaval agora é o ano inteiro e
traz coreografia e caricaturas em tempo quase exóticas, que
sambam e jubilam com dinheiro público que compraria centenas de ambulâncias,
muitas toneladas de merenda escolar e aí por diante. Quiçá alguém, lá de cima,
daqueles que estão acima das necessidades básicas do cidadão, dirá: "Isso é
reclamação de pobre." Pois digo que se não fossem os trabalhadores sofridos, as
crianças que não tem nem sapatos para ir à escola, eles sequer teriam
justificativa para inventar esses projetos absurdos e fantasiosos cujos
propósitos, não raro, são bem outros. Outro dia, perdi até a vontade de
almoçar quando li sobre o Blog de Maria Bethania, que consumiria R$1,3 milhão
para fazer o que o jornalista Fred Leal provou que pode ser feito em 15 minutos.
O resto vem da criatividade e boa vontade do povo, que manda os poemas. Isso,
sim, é incentivo à propagação cultural.
Entretanto, muita gente aceita ou nem percebe esse tipo de
projeto de imposição de uma caricatura poética, dissimulada na forma de programa
de enriquecimento cultural. É que muita gente nem tem tempo para notar essas
coisas. Depois, tem gente que se sente ofendido pelas palavras de Silvester
Stallone: “Você pode explodir o país inteiro e eles vão dizer ‘obrigado, e aqui
está um macaco para você levar de volta para casa’.” Por que devemos nos
humilhar tanto diante desses povos estrangeiros. Muitos deles são famosos, são
gente boa, são ricos, ou não. Mas sequer estão pedindo para sermos seus
vassalos. Temos de assumir nosso valor. Cadê aquele negócio de "brilhou no céu
da Pátria nesse instante?". Queria que houvesse uma centena dessas pessoas que
vão direto ao ponto. Quem sabe a gente comece a ver as coisas sem o véu da
ilusão: esquecer esse negócio de Brasil é o rei do futebol, pois já não
está com essa bola toda; notar que a falta de recursos, os salários de miséria e
o déficit na saúde pública não se pode anestesiar com o carnaval pesado de
fantasias "made in China", que só trás prejuízos, pois se há lucro, este vem
apenas para quem já tem o bastante; ver que a educação não deve ser mascarada
por números apenas, pois de que vale um diploma se não se aprendeu nada do que
foi ensinado. Este serve, sim, para os que gostam de enganar e de se enganar. Aí
estão verdadeiros narcisistas cegos para a realidade.
Se para ter cultura eu necessitar desses poemas do Blog da
Bethania, quero morrer ignorante como sou, mas que minha parte dessa "cultura"
seja revertida em benefícios que se casem melhor com as necessidades mais
imediatas do cidadão. Não se está aqui a ridicularizar o circo, em cujo
picadeiro passeou nossa imaginação na infância e ainda hoje o faz. Também não se
está aqui a dizer que não é bom que tenhamos um programa cultural desses (o tal
blog), só é preciso deixar claro que, se ele custa o sangue do trabalhador que
nem tem acesso a esse conteúdo, quem, então, será favorecido pelo programa??
Gosto de poemas e, raras vezes, até os escrevo, mas, ao contrário do moço que
recitava versos no trem da Central a Dom Casmurro, fico vexado e os meto ao
bolso sem os ter lido para alguém. Ah! Como sou ignorante! Morrerei assim, pois
a cultura nos custa muito caro. O que é pior, tome goela abaixo, goste ou não.
Seja lá do jeito que for. Meus parabéns ao jornalista Fred Leal. Homem que, pelo
que notei, é dono de um exímios conhecimento e atitude, dentre outros atributos.
Fui lá no
365 Poemas a um Real conferir e
me emocionei com excelentes poemas e, como sempre digo: aprendi coisas. O
gigante adormecido, chamado Brasil, tem de acordar agora. Tem de ser agora,
mesmo!
Lá do alto, lembro-me bem, a poeira vermelha anunciava a
chegada da jardineira, que me encantava em todos os seus detalhes. Até o cheiro
do vapor de gasolina e poeira pareciam perfumes... Subir na jardineira, abrir e
fechar os vidros, ir lá para o fundo e olhar a rua... As casas ficando para trás.
Lá do bar do Nô, os parentes acenando para os passageiros nas janelas. Depois,
tal qual no poema de Manoel Bandeira, passava cerca, passava árvore, passava
poste, passava boi, passava boiada, passava galho de ingazeiro, debruçado no
riacho... Realmente dava vontade de cantar, mesmo com lágrimas... Lá do fundo do
coração, Meu Deus...
Pois é, Seu Neném Borges o motorista e o Virgílio do Zé
Camilo, o ajudante, carregados de recados, bilhetes, cartas, encomendas, tudo na
cabeça, aqui devolve o latão de leite, lá na frente entrega uma peça para o
arado, volta correndo e pede para alguém entregar a caixa de remédios para Dona
Orora... Relógio a essas alturas vai servir pra que? Pára depois da ponte de
madeira do Brejinho da Serra, na beira da estrada, enche um galão d’água e
completa o radiador fervendo da velha F8.
A jardineira sempre me devolve à infância, deitar na grama de
barriga pra cima, chupando cana, olhando os urubus, as nuvens, passeio no mato,
andar de cavalinho nas costas da tia Lídia, colher melão de São Caetano,
araticum cagão, murici, correr de cobra coral, picada de marimbondo chumbinho,
deslizar no lajeado do Córrego da Capivara, voltar cansado e, à noite, olhar o
céu e contar as estrelas; tentar entender aquela mancha brilhante que meu avô
ensinou ser um caminho de leite.
Mesmo morando num apartamento com uma grande área que até
parece quintal, olho para o meu céu de não sei quantas estrelas, fracionado
pelos cumes dos prédios. A paz é violentada por turbinas de avião e sirenes de
radiopatrulhas.
Encontrei na internet outros meninos “como eu” que sonham com
uma jardineira, lá de São Paulo... Como o mundo é pequeno de chão, mas cheio de
corações inundados de infâncias que se foram... Como se foram as velhas
jardineiras!
A foto da jardineira que ilustra este texto foi
retirada deste endereço:
http://piquerobi.tripod.com/piquerobi_de_alguns_anos_atras3.htm e, até onde
sei, não se trata da F8 de que fala o texto. Se acaso o proprietário da imagem
se sentir ofendido por ela ter sido inserida como ilustração do texto acima,
favor nos comunicar, que a retiramos imediatamente. Entretanto, fica a dica de
visitar o endereço mencionado para conhecer melhor as jardineiras.
Eu, aqui
do alto do meu teclado
de computador barato de pobre trabalhador, escrevo envergonhado um comentário
sobre uma notícia que li estarrecido. Ainda pela manhã desta terça-feira
deparei-me com um texto no BOL que dizia que a Dilma (ela mesma, a Presidenta do
Brazil,
com “z” proposital), ofereceu nossos préstimos para sanar os problemas da União
Européia em crise. Imediatamente chamei os daqui de casa para diante do
computador e, chateado com a internet lenta ainda abrindo a página, disse: Isso
ainda vai dar mer... quero dizer: gerar muitos comentários de repercussão
negativa para nós brasileiros. Eu falava do óbvio. Soou como se eu, um grãozinho
de areia nessa praia dos problemas capitalistas fosse aconselhar o senhor Senior
Abravanel sobre suas finanças (nada contra esse cidadão, que considero
excepcional no mundo dos negócios). Então li no mesmo site as já tão esperadas
críticas do Financial
Times:
"O país ranqueado em 152º pelo Banco Mundial por seu pesado sistema tributário
está aconselhando contra impostos restritivos", escreve a autora, Samantha
Pearson.
(lido no
BOL Notícias).
Nesse exato instante, minha mão que se esforçava por catar letras no teclado,
para fazer bonito aqui para você leitor, fica trêmula e involuntariamente se dá
com o copo de uísque barato com duas pedras de gelo já pequenas e flutuando. O
gole desceu queimando, contudo queimava mais o discurso da Primeira Dama. Então
concluí que é nessas horas que o cidadão bebe mesmo. Depois vão dizer que
atropelei as palavras por que estava embriagado. Mas, meus prezados concidadãos,
quem, em sã consciência não se vexa diante de tal fato? Não se trata de se
rebaixar perante a União Européia, mas de enxergar diante de um espelho em que
degrau se está diante do dilúvio de complicações econômicas e tantas outras.
Vivemos num país que tem uma carga tributária injusta e muito mal aproveitada.
Mas, com certeza, aquele negócio de tirar o cisco do próprio olho primeiro não
tem nada a ver aqui. As deficiências na saúde, na segurança e a falta de emprego
é que deviam manter um(a) Presidente(a) em seu próprio país fazendo o dever de
casa antes de ir dar conselhos aos primos
ricos.
Fazer o que? O Lula já falava demais. Assim, anestesiados, como eu ficaria se
fosse bebedor compulsivo e descontrolado, vai-se fazendo de conta que tudo vai
bem e arrogando uma posição imprópria onde é mais fácil vendar os cidadãos do
que ensiná-los a ler e a compreender a situação desconfortável de eleitor mal
assalariado que só tem deveres a cumprir nessa sociedade injusta e violenta.
Agora já podemos ajudar até o dito Primeiro Mundo, deixe estar que sonhar não
paga nada. Mas que fiquei envergonhado, fiquei! Só não vou mandar um e-mail a
cada pessoa na Terra dizendo que não partilho da maioria dos pensamentos desses
últimos Presidentes, porque iam me acusar de inundar os servidores da internet.
Para quem me julgar arrogante, saiba que também erro. O atenuante é, talvez, a
minha posição social. Estamos bem, hein?
[1]
Pós-graduado em Redes de Computadores pela FACIMED - Faculdade de Ciências
Biomédicas de Cacoal. Graduado em Tecnologia da Informação pela UNESC - União
das Escolas Superiores de Cacoal. Tem CCNA (Cisco) como curso complementar de
Redes de Computadores. Profissional da área de Eletrônica e de
Programação de Computadores.